"O maior risco da vida religiosa não é trabalhar muito. É trabalhar sem paixão"
19/09/2026

"O maior risco da vida religiosa não é trabalhar muito. É trabalhar sem paixão"

"O maior risco da vida religiosa não é trabalhar muito. É trabalhar sem paixão"

Às vésperas de completar 50 anos de ordenação, Pe. Assis Moser falou aos formandos sobre ardor apostólico, e à tarde a Jornada saiu da sala para o território das obras sociais

APARECIDA (SP) — A frase veio depois de quase uma hora de conversa e de uma advertência sobre o excesso de trabalho. "O maior risco da vida religiosa não é trabalhar muito. É trabalhar sem paixão. Não é fazer muitas coisas, é perder o sentido."

Quem falava era o Pe. Assis Moser, salesiano às vésperas de completar 50 anos de ordenação sacerdotal, na manhã do segundo dia da I Jornada Formativa da Formação Inicial, que reúne em Aparecida 171 participantes das Filhas de Maria Auxiliadora e dos Salesianos de Dom Bosco.

Se o primeiro dia apresentou a Rede Salesiana Brasil por dentro, o segundo foi dedicado ao que a sustenta. E a Rede dividiu a manhã entre uma voz de fora e uma voz de dentro.

Das 8h45 às 10h15, o tema que dá nome ao encontro, "Peregrinos da esperança: crescendo na graça da vocação e da missão", coube ao Prof. Leonardo Humberto Soares, que não é salesiano. Doutor e mestre em Educação e graduado em História, ele é Secretário Executivo da União Marista do Brasil e da Região América Sul Marista, e trabalha com processos de governança e fortalecimento da missão em congregações religiosas, tendo acompanhado, além dos Maristas, as Irmãs Salvatorianas e as Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus.

Sua exposição partiu de uma pergunta que atravessaria o resto do dia e que o próprio Pe. Assis retomaria em seguida: quem eu era quando Deus me chamou. A manhã havia começado com a oração conduzida pela Ir. Adriana Gomes da Silva, das Casas de Formação FMA, e com uma encenação do encontro dos discípulos de Emaús com Jesus.

Ardor não é gestão

O Pe. Assis assumiu o microfone às 10h45 com um percurso que foi da espiritualidade pessoal de Dom Bosco às ameaças concretas que hoje corroem o entusiasmo de quem trabalha com juventude.

"O ardor apostólico não é gestão. É fogo, é paixão", afirmou. "Pode haver muito trabalho e pouco ardor. E pode haver poucas atividades e muito ardor."

Ele voltou várias vezes à ideia de que a missão nasce da vida interior, e não o contrário. "Dom Bosco viveu a partir de Deus. E vivendo a partir de Deus, ele viveu para os jovens e viveu com os jovens." Antes de ser educador, disse, ele era homem de Deus.

A advertência veio em seguida, apoiada no Papa Francisco. "Não podemos ser uma ONG. Fazer as coisas bem feitas, bonitinhas, mas sem espiritualidade e sem verdadeiramente uma experiência de fé naquilo que somos e fazemos."

Caminho, janela, oficinas e poço

A parte central da exposição foi dedicada a Madre Mazzarello, organizada em quatro símbolos da vida dela em Mornese.

O caminho, que ela percorria de casa até a igreja, ele leu como travessia. "Não importa tanto a saída e a chegada. Importa é a travessia, o caminho de sermos peregrinos." É no caminho, disse, que a fé se consolida e que se passa de uma fé infantil para uma fé adulta. Contou que na quinta-feira subiu a pé a passarela até o Santuário Nacional, e que já subiu treze vezes o Pico do Marumbi, no Paraná.

A janela, de onde Mazzarello olhava a igreja para entrar em comunhão com a Eucaristia, ele leu como abertura. "Entra-se pela porta, mas Jesus entra também pela janela."

As oficinas, onde ela ensinava a costurar, ele leu como serviço e compromisso, recordando a frase atribuída a ela: "cada ponto de agulha deve ser um ato de amor a Deus". E ligou as oficinas de Mornese às obras sociais de hoje.

O poço, por fim, como profundidade. "Não podemos viver a superficialidade da vida. Temos que ir ao essencial."

O que ameaça o ardor

O trecho mais direto da fala foi a lista do que, segundo ele, apaga o fogo: o ativismo, o individualismo e o desgaste emocional.

Sobre o primeiro, contou um episódio de um congresso sobre o Sistema Preventivo. Diante da queixa de que não sobrava tempo para rezar, o palestrante respondeu que, se trabalhavam tanto, então precisavam rezar muito mais. "Dizer que não temos tempo para rezar não é verdade."

Sobre o individualismo, foi específico. "A missão não é entregue a uma pessoa. A paróquia é entregue à comunidade. E às vezes nós fazemos de uma determinada obra a minha obra."

E sobre o desgaste, dirigiu a pergunta a quem estava na sala acompanhando os formandos. "Quem é que cuida dos cuidadores? Quem é que cuida dos formadores? Quem é que cuida dos educadores?"

Recordou ainda duas frases que disse carregar. Uma, ouvida de um confrade: "A gente não vive onde mora. A gente vive onde é amado." Outra, ouvida em uma assembleia inspetorial: "As comunidades não querem saber se nós fazemos isso ou aquilo. Elas querem saber se nós nos amamos."

"Não queremos qualquer salesiano"

A parte final da exposição foi construída como envio.

"O mundo não precisa apenas de religiosos e religiosas eficientes. Precisa de homens e mulheres apaixonados por Cristo", afirmou. "Os jovens não esperam especialistas em pastoral. Esperam testemunhas de vida."

E completou com a frase que resume o argumento do dia inteiro. "O futuro da missão salesiana dependerá menos das estruturas e mais da intensidade espiritual daqueles que a vivem."

Lembrou que o Oratório começou num espaço mínimo, junto à igreja de São Francisco de Assis, em Turim. "Às vezes nos preocupamos em demasia com estruturas e esquecemos do essencial."

Retomou então os discípulos de Emaús, encenados horas antes. "Eles caminharam desanimados, escutaram Jesus, reconheceram-no ao partir o pão e voltaram para a missão. O verdadeiro encontro com Cristo sempre termina no envio. Dom Bosco e Mazzarello nunca permaneceram olhando para si mesmos. Eles sempre voltaram para os jovens."

E encerrou com um desafio dirigido aos que estão em formação inicial. "Não queremos qualquer salesiano. Não queremos qualquer Filha de Maria Auxiliadora." Seguiu-se a oração final e dois cantos, executados por dois participantes, sobre o Oratório e sobre Dom Bosco.

A pergunta que ficou

No espaço de partilha, um formando devolveu uma questão ao palestrante. Se o Oratório já existia três ou quatro séculos antes de Dom Bosco, e ele o adaptou ao seu tempo observando o mundo em que vivia, como adaptar o Oratório ao mundo de hoje.

O Pe. Assis já havia sugerido por onde começar. Ao falar da criatividade pastoral de Dom Bosco, disse que ele perguntaria hoje à Família Salesiana: onde estão os jovens? Onde encontrar aqueles que não vão mais à igreja? Vocês estão onde os jovens estão? Vocês estão onde os jovens realmente precisam de vocês?

No Dia do Educador Social, o território

À tarde, os 171 participantes deixaram o Centro de Eventos. A coordenação lembrou, antes da saída, que aquele 19 de setembro é celebrado no Brasil como Dia do Educador Social, data que marca o nascimento de Paulo Freire, e que a tarde aconteceria justamente em territórios de obras sociais.

Divididos em dois grupos de cerca de 80 pessoas, os formandos seguiram para a réplica da Casa de Dom Bosco, obra social em Pindamonhangaba, e para o Memorial das Filhas de Maria Auxiliadora no Brasil, em Guaratinguetá. No domingo, os grupos trocam de destino, de modo que todos conheçam os dois lugares.

A programação previu momento de deserto, reflexão pessoal e celebração eucarística. A orientação dada a todos foi levar material de anotação.

A escolha dos destinos ganha relevo diante de uma das frases mais duras da manhã. "O fogo do carisma não se conserva em museus", disse o Pe. Assis. "Mantém-se aceso em corações que continuam dizendo, todos os dias: Senhor, envia-me novamente aos jovens."

O balanço dos formadores

Enquanto os formandos circulavam, os formadores que os acompanham durante toda a Jornada começaram a avaliar o que estavam vendo.

Diretor do Instituto Teológico Pio XI, Curatório de Teologia, da Inspetoria Salesiana de São Paulo, o Pe. Paulo Profilo diz ter ouvido a mesma frase repetidas vezes fora da sala. "Já escutei no almoço ou nos corredores: poxa, não imaginava que tinha isso, que tinha aquilo."

Para ele, esse é o efeito central do encontro. "Cada um na sua Inspetoria, cada um na sua casa de formação, não tinha essa visão de quão rico é o trabalho que nós fazemos na Rede Salesiana Brasil." E lembra que a própria geração não teve a mesma oportunidade: "A gente viu a rede se construindo, tomando forma, mas não teve como participar disso."

Coordenador Nacional da Formação dos Salesianos do Brasil, o Pe. Cássio Rodrigo de Oliveira aponta o que a Jornada acrescenta. "Até na formação, e pelo menos falo dos Salesianos de Dom Bosco, não tínhamos esse momento formativo, experiencial e também de convívio. Até mesmo entre nós, não conhecíamos os formandos de outras regiões, e todas as regiões estão aqui presentes."

Da Inspetoria Madre Mazzarello, de Belo Horizonte, a Ir. Jane Maria da Silva, diretora da Escola Salesiana Brasília, destaca o encontro entre as duas congregações. "É a oportunidade de conhecer, de aprofundar mais sobre a rede, porque é esse o nosso mundo, é isso que vão assumir. E a gente ama aquilo que conhece."

Coordenadora Inspetorial da Formação na Inspetoria Nossa Senhora da Amazônia, a Ir. Ana Clébia Palheta Lima recorreu à fundadora. "Como diz Madre Mazzarello, é tempo de reavivar o fogo. Essa jornada está sendo para nós realmente esse momento de reavivar o fogo."

Mestra de noviças no Noviciado Interinspetorial Nossa Senhora das Graças, da Inspetoria Nossa Senhora Aparecida, a Ir. Solange de Fátima Sanches chamou o primeiro dia de "um banho de Rede Salesiana" e elogiou os dois palestrantes da manhã. "Trouxeram conteúdos importantes para a reflexão dos jovens e também para nós como formadores."

Ela é, no entanto, a voz mais crítica entre os ouvidos. "Não dá para dizer que todo mundo aproveitou. Vi muita gente que, no meu entender, acha que já sabe tudo." E aponta uma lacuna concreta: "A gente não teve um tempo para conversar como formadores."

Da Inspetoria de Manaus, hoje na comunidade do Curatório do Pós-Noviciado de Campo Grande, o Pe. Jeferson Luís Santos guardou do dia exatamente a palavra que o Pe. Assis repetiu. "O Padre Assis usou um termo que inclusive eu repeti depois: travessia. A gente espera que eles, ao fazerem esse caminho, consigam chegar ainda mais firmes na opção que fizeram pela pessoa de Jesus."

Encerramento no domingo

A Jornada se encerra neste domingo, 20, com novas formações guiadas na Casa de Dom Bosco e no Memorial das Filhas de Maria Auxiliadora, das 9h às 11h30, seguidas de momento pessoal de reflexão e celebração eucarística. O encerramento está previsto para o meio-dia.

Os participantes foram convidados a responder a um formulário de síntese sobre o que ouviram e refletiram ao longo do encontro.

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