"O maior risco da vida religiosa não é trabalhar muito. É trabalhar sem paixão"
19/09/2026

"O maior risco da vida religiosa não é trabalhar muito. É trabalhar sem paixão"

"O maior risco da vida religiosa não é trabalhar muito. É trabalhar sem paixão"

Segundo dia da programação aprofundou a experiência vocacional, o compromisso com a missão e a necessidade de manter vivo o sentido da presença salesiana junto aos jovens

APARECIDA (SP) | O segundo dia da I Jornada Formativa da Formação Inicial da Rede Salesiana Brasil levou os 171 participantes a uma reflexão sobre aquilo que sustenta a missão salesiana: a vocação, a espiritualidade e a disposição permanente para se deixar transformar pelo chamado recebido. Reunindo formandos das Filhas de Maria Auxiliadora e dos Salesianos de Dom Bosco, a programação combinou formação, espiritualidade e experiências concretas nas obras sociais, aproximando os participantes da realidade da missão que são chamados a assumir.

A manhã teve como ponto de partida a palestra “Peregrinos da esperança: crescendo na graça da vocação e da missão”, conduzida pelo Prof. Leonardo Humberto Soares, Secretário Executivo da União Marista do Brasil e da Região América Sul Marista. Doutor e mestre em Educação e graduado em História, Leonardo atua com processos de governança e fortalecimento da missão em congregações religiosas e trouxe para o encontro uma reflexão sobre o caráter dinâmico da vocação e os desafios de permanecer fiel ao chamado ao longo da vida.

Uma vocação que continua em transformação

Ao abordar o tema da Jornada, Leonardo propôs aos participantes olhar para a própria trajetória vocacional como um caminho em permanente construção. Para ele, a experiência do chamado não se encerra no momento em que uma pessoa faz sua opção de vida. Ao contrário, ela continua amadurecendo a partir das experiências, dos desafios e das respostas dadas ao longo do caminho.

“Que não tenham medo de continuar se deixando transformar pela própria vocação. A vocação não é algo que um dia ficou pronto; é um caminho que continua amadurecendo conosco.”

A imagem do peregrino da esperança apareceu, assim, como uma chave para compreender a própria missão. Caminhar, segundo Leonardo, significa também reconhecer que nem sempre existem respostas prontas e que o discernimento precisa acompanhar cada etapa da trajetória.

“Ser peregrino da esperança é caminhar mesmo quando não temos todas as respostas, confiando, discernindo e permanecendo atentos àquilo que Deus e a realidade nos pedem.”

A reflexão dialogou diretamente com o momento vivido pelos participantes, que estão em diferentes etapas do processo de formação inicial. O desafio apresentado não é apenas compreender o chamado recebido, mas permanecer aberto às transformações que a própria vocação provoca.

“O nosso ‘sim’ pode ter começado em um determinado momento, mas tornar-se fiel a esse ‘sim’ é tarefa para a vida inteira.”

Da compreensão do tempo ao compromisso com o presente

A palestra também colocou os formandos diante dos desafios do mundo contemporâneo. Em vez de propor respostas prontas para as mudanças sociais, culturais e institucionais, Leonardo provocou os participantes a refletirem sobre a maneira como cada um pretende responder à realidade.

A pergunta que ele gostaria que permanecesse depois da formação é direta: “Diante de tudo isso, o que eu vou fazer a respeito?”

Para o professor, a questão vocacional passa necessariamente pela capacidade de discernir qual presença cada pessoa deseja oferecer ao mundo e à missão.

“Não podemos controlar as mudanças do mundo, mas podemos discernir como vamos responder a elas. Que pessoa eu preciso me tornar? Que presença quero ser? E como os dons que recebi podem ser colocados a serviço dos jovens e da missão?”

A provocação desloca a reflexão de uma compreensão meramente teórica sobre os desafios atuais para uma perspectiva de responsabilidade pessoal. Mais do que interpretar o tempo presente, trata-se de decidir como estar nele e como colocar os próprios dons a serviço da missão.

“Talvez esse seja o grande desafio: não apenas compreender o tempo em que vivemos, mas decidir como queremos estar presentes nele.”

O ardor apostólico como fundamento da missão

Na sequência, o Pe. Assis Moser conduziu uma reflexão sobre o ardor apostólico e a espiritualidade que sustentou a missão de Dom Bosco e Madre Mazzarello. Às vésperas de completar 50 anos de ordenação sacerdotal, o salesiano chamou a atenção para um risco que pode atingir aqueles que se dedicam intensamente à missão: realizar muitas atividades sem perder, porém, a paixão que dá sentido ao trabalho.

“O maior risco da vida religiosa não é trabalhar muito. É trabalhar sem paixão. Não é fazer muitas coisas, é perder o sentido.”

A partir da espiritualidade de Dom Bosco e de elementos da vida de Madre Mazzarello, Pe. Assis apresentou quatro imagens: o caminho, a janela, as oficinas e o poço. Cada uma foi utilizada para falar de dimensões fundamentais da experiência vocacional, como travessia, abertura, serviço e profundidade.

A reflexão também abordou fatores que podem enfraquecer o ardor apostólico, entre eles o ativismo, o individualismo e o desgaste emocional. Para o salesiano, cuidar daqueles que cuidam também precisa fazer parte da missão.

Uma missão que sempre retorna aos jovens

Ao final da manhã, Pe. Assis reforçou que a missão salesiana não pode ser reduzida à eficiência ou à quantidade de atividades realizadas. O centro está na experiência de fé e no testemunho de vida.

“O mundo não precisa apenas de religiosos e religiosas eficientes. Precisa de homens e mulheres apaixonados por Cristo. Os jovens não esperam especialistas em pastoral. Esperam testemunhas de vida.”

A reflexão retomou a experiência dos discípulos de Emaús, apresentada na abertura da manhã. Depois do encontro com Jesus, eles retomaram o caminho e voltaram para a missão. A imagem sintetizou uma das principais provocações do dia: a experiência vocacional não conduz ao fechamento em si mesmo, mas ao encontro com as pessoas e ao serviço à missão.

Da formação ao território das obras sociais

À tarde, a Jornada deixou o espaço de formação para aproximar os participantes de duas experiências concretas da presença salesiana. Divididos em grupos, os formandos visitaram a réplica da Casa de Dom Bosco, em Pindamonhangaba, e o Memorial das Filhas de Maria Auxiliadora no Brasil, em Guaratinguetá. A programação incluiu momentos de reflexão pessoal, espiritualidade e celebração eucarística.

A escolha dos espaços ajudou a conectar a reflexão da manhã com a realidade da missão. O patrimônio, a memória, a ação social e a presença junto às comunidades aparecem não apenas como estruturas, mas como expressões concretas de uma história que continua sendo construída.

A experiência também dialogou com uma das provocações apresentadas por Pe. Assis: o carisma não se conserva apenas pela memória, mas permanece vivo quando encontra pessoas dispostas a assumir novamente a missão.

Uma jornada de travessia

Para os formadores, a experiência também representa uma oportunidade de ampliar a compreensão sobre a dimensão nacional da Rede Salesiana Brasil. O Pe. Paulo Profilo destacou a surpresa de muitos participantes diante da diversidade e da dimensão do trabalho realizado pela Rede. Já o Pe. Cássio Rodrigo de Oliveira ressaltou o caráter formativo e experiencial do encontro entre participantes de diferentes regiões.

Entre as participantes, Ir. Jane Maria da Silva destacou a possibilidade de aproximar formandos das duas congregações, enquanto Ir. Ana Clébia Palheta Lima resumiu a experiência como um momento de “reavivar o fogo”. A Ir. Solange de Fátima Sanches definiu o primeiro dia como um “banho de Rede Salesiana”, ressaltando a contribuição das formações para formandos e formadores.

A palavra travessia, utilizada pelo Pe. Assis, acabou também sintetizando a experiência. Como observou o Pe. Jeferson Luís Santos, a expectativa é que os formandos percorram esse caminho cada vez mais firmes na opção que fizeram por Jesus.

Mais do que reunir conteúdos e experiências, a Jornada propõe um caminho de amadurecimento. Entre a pergunta sobre quem cada um era quando recebeu o chamado e a pergunta sobre quem deseja se tornar diante dos desafios atuais, os participantes são convidados a compreender que vocação e missão permanecem abertas ao discernimento.

E, como provocou o Prof. Leonardo Humberto Soares, ser peregrino da esperança é justamente continuar caminhando, deixando-se transformar e encontrando novas formas de colocar os dons recebidos a serviço dos jovens e da missão.

Siga a RSB nas redes sociais:

2026 © Rede Salesiana Brasil